Doenças inflamatórias intestinais: por que o tratamento mudou?
Durante muitos anos, o tratamento das doenças inflamatórias intestinais (DII), principalmente a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, foi baseado em uma estratégia progressiva: começava-se com medicamentos considerados mais simples e o tratamento era intensificado apenas quando os sintomas persistiam ou a doença apresentava novas complicações.
Hoje, essa abordagem mudou de forma significativa.
O objetivo atual não é apenas fazer com que o paciente se sinta melhor. Sempre que possível, buscamos controlar efetivamente a inflamação, alcançar remissão sustentada, evitar o uso repetido de corticoides, prevenir dano intestinal e preservar a qualidade de vida ao longo dos anos.[1–3]
Controlar sintomas não é suficiente
Um dos aprendizados mais importantes das últimas décadas é que sintomas e atividade inflamatória nem sempre caminham juntos.
Um paciente com doença de Crohn, por exemplo, pode apresentar poucos sintomas e ainda manter inflamação intestinal capaz de produzir, progressivamente, estenoses, fístulas, abscessos ou necessidade de cirurgia.
Por esse motivo, o acompanhamento moderno das DII utiliza uma estratégia conhecida como treat-to-target, ou “tratar até atingir um alvo”. Além da melhora dos sintomas, são avaliados parâmetros objetivos, como proteína C-reativa, calprotectina fecal, endoscopia e, em situações selecionadas, exames de imagem.
Segundo o consenso internacional STRIDE-II, entre os objetivos de longo prazo do tratamento estão a remissão clínica, a cicatrização endoscópica, a recuperação da qualidade de vida e a redução do impacto da doença sobre as atividades do dia a dia.[3]
Isso significa uma mudança importante de perspectiva: o tratamento não deve ser avaliado somente pela quantidade de evacuações ou pela presença de dor abdominal.
Doença de Crohn: evitar que a inflamação se transforme em dano estrutural
A doença de Crohn pode ter comportamento progressivo. A inflamação persistente ao longo do tempo pode resultar em fibrose, estenoses, fístulas e outras complicações, além de aumentar a possibilidade de necessidade de cirurgia intestinal.
As diretrizes da European Crohn’s and Colitis Organisation (ECCO) de 2024 reconhecem a importância do diagnóstico precoce, do início oportuno do tratamento e da monitorização próxima da resposta terapêutica.[1]
Para pacientes com doença moderada a grave, a ECCO recomenda diferentes terapias avançadas para indução e manutenção da remissão. Isso representa uma diferença importante em relação ao antigo modelo de esperar sucessivas falhas de terapias menos eficazes antes de utilizar tratamentos mais potentes.
Adiar uma terapia efetiva em um paciente com doença de maior risco pode ter consequências que vão além da persistência dos sintomas.
E na retocolite ulcerativa?
Na retocolite ulcerativa, a situação apresenta algumas diferenças.
A nova diretriz da ECCO para o tratamento clínico da retocolite ulcerativa, publicada em julho de 2026, mantém os aminossalicilatos como tratamento fundamental para muitos pacientes com doença leve a moderada. Entretanto, na doença moderada a grave, diversas terapias avançadas apresentam evidências suficientes para serem recomendadas para indução e manutenção da remissão.[2]
Os corticoides ainda podem desempenhar um papel importante na indução da remissão em determinadas situações, mas não são uma estratégia adequada de manutenção. Dependência de corticoides, necessidade de cursos repetidos ou incapacidade de manter a remissão devem motivar a reavaliação do tratamento.
É importante lembrar, entretanto, que retocolite ulcerativa e doença de Crohn são doenças distintas e podem exigir estratégias de tratamento individualizadas.[1,2]
O que são terapias avançadas?
O termo inclui medicamentos desenvolvidos para atuar de forma mais específica sobre diferentes mecanismos envolvidos na inflamação intestinal.
Entre eles estão os medicamentos biológicos e também terapias mais recentes administradas por via oral. Esses tratamentos atuam sobre diferentes etapas do processo inflamatório, permitindo que a estratégia seja individualizada de acordo com as características de cada paciente e da própria doença.
A existência de várias opções não significa que exista um “melhor medicamento” universal.
A escolha depende de fatores como:
- gravidade, localização e comportamento da doença;
- tratamentos utilizados anteriormente;
- presença de manifestações da doença fora do intestino;
- idade e outras condições de saúde;
- risco de infecções e perfil de segurança;
- planejamento de gestação;
- preferência do paciente;
- via e frequência de administração;
- rapidez de ação necessária.
Por isso, duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem receber tratamentos completamente diferentes e ambas estarem sendo tratadas de acordo com as melhores evidências disponíveis.
O objetivo final é devolver controle sobre a vida
Remissão não deve significar apenas “ter menos sintomas”.
As metas atuais de tratamento incluem viver sem dependência de corticoides, controlar objetivamente a inflamação, evitar hospitalizações e complicações sempre que possível e permitir que a doença interfira o mínimo possível no trabalho, nos estudos, nas viagens, na atividade física e na vida social.
Nas DII moderadas a graves, utilizar uma terapia suficientemente eficaz no momento adequado pode ser tão importante quanto escolher qual terapia utilizar.
O tratamento moderno das doenças inflamatórias intestinais é, portanto, cada vez menos baseado em simplesmente reagir às complicações e cada vez mais direcionado a preveni-las, monitorando a doença e ajustando precocemente a estratégia quando os objetivos terapêuticos não são alcançados.
Referências
- Gordon H, Minozzi S, Kopylov U, et al. ECCO Guidelines on Therapeutics in Crohn’s Disease: Medical Treatment. Journal of Crohn’s and Colitis. 2024;18(10):1531–1555. doi:10.1093/ecco-jcc/jjae091.
- Gisbert JP, Chaparro M, Verstockt B, et al. ECCO Guidelines on Therapeutics in Ulcerative Colitis: Medical Treatment. Journal of Crohn’s and Colitis. 2026;20(7):jjag066. doi:10.1093/ecco-jcc/jjag066.
- Turner D, Ricciuto A, Lewis A, et al. STRIDE-II: An Update on the Selecting Therapeutic Targets in Inflammatory Bowel Disease Initiative of the IOIBD. Gastroenterology. 2021;160(5):1570–1583. doi:10.1053/j.gastro.2020.12.031.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui uma avaliação médica individualizada. A escolha do tratamento das doenças inflamatórias intestinais deve considerar a atividade e o comportamento da doença, tratamentos prévios, outras condições de saúde, perfil de segurança e preferências de cada paciente.
