A cirurgia para câncer de reto salvou inúmeras vidas nas últimas décadas. Porém, muitos pacientes descobrem que, mesmo curados da doença, o intestino “nunca mais voltou ao normal”. Esse conjunto de alterações recebe o nome de LARS — Low Anterior Resection Syndrome.
O que é LARS?
LARS é uma disfunção intestinal crônica que pode ocorrer após cirurgias preservadoras do esfíncter anal. De acordo com a definição internacional de consenso, o LARS envolve sintomas intestinais que impactam significativamente a qualidade de vida.
Os sintomas mais comuns incluem:
- Urgência evacuatória (dificuldade de segurar as fezes)
- Evacuações muito frequentes
- Várias idas ao banheiro em curto intervalo (“clustering”)
- Sensação de evacuação incompleta
- Incontinência fecal ou escapes
- Função intestinal imprevisível
Mais importante que os sintomas isolados é o impacto na vida do paciente: medo de sair de casa, dependência de banheiro, alterações na vida social, profissional e íntima.
Por que o LARS acontece?
Após a cirurgia do reto, o reservatório natural de fezes diminui e os nervos pélvicos podem ser afetados. Além disso, tratamentos como radioterapia podem contribuir para alterações na motilidade e na sensibilidade intestinal. O resultado é um intestino que evacua de forma mais frequente, urgente e fragmentada.
Como tratamos o LARS?
O tratamento é progressivo e individualizado. Pode incluir:
Medidas iniciais
- Ajustes na dieta
- Reabilitação pélvica
- Treinamento evacuatório
Irrigação transanal
Ajuda a esvaziar o intestino de forma programada, reduzindo clusters e urgência.
Neuromodulação sacral (SNM)
Quando os sintomas persistem apesar das medidas conservadoras, a neuromodulação sacral surge como uma das terapias mais eficazes.
A SNM utiliza um pequeno dispositivo implantável que modula os nervos responsáveis pelo controle intestinal. Estudos clínicos mostram que a neuromodulação pode:
✔ Reduzir urgência
✔ Diminuir episódios de incontinência
✔ Reduzir evacuações fragmentadas
✔ Melhorar a sensação de esvaziamento
✔ Melhorar significativamente a qualidade de vida
O ensaio clínico randomizado SANLARS demonstrou melhora sustentada dos sintomas intestinais e da qualidade de vida em pacientes com LARS grave tratados com neuromodulação sacral.
Quando considerar a neuromodulação?
Ela é indicada principalmente para pacientes com:
- LARS grave
- Falha de tratamento clínico e reabilitação
- Impacto importante na qualidade de vida
É uma terapia reversível, ajustável e minimamente invasiva, e pode evitar a necessidade de um estoma definitivo em alguns casos.
Mensagem final
O LARS não é “frescura” nem “algo com que é preciso conviver”. É uma condição reconhecida internacionalmente e com tratamento. Se o intestino mudou após a cirurgia do reto, vale a pena procurar avaliação especializada.
